Como se encontram novos autores num mercado em crise? E o que é que um autor tem de fazer para conseguir publicar pela primeira vez? Esta é pelo menos uma parte da resposta: a Internet passou a ser essencial no circuito da edição mundial.
Os escritores Carol Rodrigues, Felipe Franco Munhoz e Marcelino Freire vieram ao Festival Literário de Macau  Rota das Letras falar sobre a nova literatura brasileira. Viajaram 30 horas para chegar de São Paulo a Macau. Com poucos dias na cidade, tudo ainda lhes parece um grande sonho, não dormem direito, acordam a meio da noite.
“É tudo muito estranho, parece que a realidade ficou lá longe e isso é muito criativo. Estamos produzindo nas madrugadas. Com certeza que vamos levar muito disso para o Brasil. A última autora brasileira que veio aqui foi a Andréa Del Fuego [Prémio José Saramago 2011] e o último romance dela [As Miniaturas] é inspirado em Macau, todo o cenário foi construído aqui”, conta Carol Rodrigues, 30 anos, autora do premiado livro de contos Sem Vista para o Mar. Ainda os brasileiros não tinham posto os pés na cidade e já estavam a criar pensando nela. Desde Fevereiro que têm vindo a publicar micronarrativas no jornal macaense Ponto Final e também no site Antessala das Letras, de que Felipe Franco Munhoz, 26 anos, é o coordenador.
O Antessala das Letras nasceu em 2014 “por causa da grande dificuldade” que os novos autores brasileiros têm para “ingressar no mercado literário” e por sentirem que havia falta de “um espaço para publicação”, explica no Festival Literário de Macau o autor do romance Mentiras, inspirado na obra de Philip Roth. É um site onde autores consagrados, “com muitos anos de estrada”, recomendam escritores, jovens ou não, em início de carreira. 
O primeiro texto que o Antessala das Letras publicou foi um conto de Carol Rodrigues. Vinha recomendada por Marcelino Freire, com quem tinha feito uma oficina de escrita. Acabou por conseguir publicar o seu primeiro livro em 2014, um volume de contos, “sobre fugas, sobre estradas, sobre um Brasil profundo e desconhecido” com o qual venceu, na categoria respectiva, os importantes prémios Jabuti e da Fundação Biblioteca Nacional em 2015. 
A inspiração para este livro nasceu da tomada de consciência de que no Brasil o sistema de transporte é todo rodoviário, “e isso é muito estranho a muitos níveis”, e também veio de uma personagem que a encanta e que é muito brasileira: “o caminhoneiro, que viaja pelas estradas muito longas, durante muito tempo, colhendo essas histórias e tomando rebite, uma droga para ficar acordado”, explica a autora. Sem Vista para o Mar foi publicado numa editora pequena e é a própria Carol Rodrigues que o divulga, vende e luta por ele. 
“As editoras grandes estão meio que acabando no Brasil. É o mesmo que aconteceu com as gravadoras. Uma grande editora, a Cosac Naify, infelizmente fechou no ano passado; fazia os livros mais lindos do país. Uma característica actual é uma ascensão massiva de editoras independentes, de publicação pelos próprios autores, alguns livros até não têm ISBN. Essa produção paralela está crescendo de mais, e isso está trazendo uma diversidade muito interessante, a gente só tem a ganhar”, acrescenta Carol Rodrigues. 
Felipe Franco Munhoz tem outro percurso mas também foi sendo ajudado por Marcelino Freire à medida que ia fazendo o seu romance Mentiras, também editado numa editora pequena. Tudo o que ele queria era escrever um livro que tivesse bons diálogos. Alguém o aconselhou a ler Deception, de Philip Roth (Engano, na tradução portuguesa da D. Quixote), cuja acção é feita de diálogos. “Estava num processo maluco de achar a forma de escrever o melhor diálogo evitando também a oralidade, esse diálogo que vai ser lido e não é uma simulação do que está sendo falado. Então chegava em casa e tentava transformar todas as conversas com pessoas reais em ficção”, explica. Foi assim que nasceu este livro que já lhe valeu um convite da Philip Roth Society para ler excertos nas comemorações dos 80 anos do escritor norte-americano, em Newark, nos EUA, em Março de 2013.
Ninguém cala um poeta
Marcelino Freire, escritor de 48 anos, criou em 2006 a Balada Literária, um festival literário em São Paulo cujo propósito é tirar a literatura das estantes e levá-la para as ruas de São Paulo. Para se “celebrar a literatura sem frescura”, costuma ele dizer. E se tanto Carol como Felipe lhe agradecem a ajuda a encontrar um caminho, o autor de Contos Negreiros, Prémio Jabuti 2006, e de Nossos Ossos, Prémio Machado de Assis 2014 de Melhor Romance, tem igual ligação com muitos outros autores brasileiros. 

Esta notícia não é parte definitiva do blog Mistérios Literários, podendo ser editada ou removia de acordo com as informações.


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