Podcast III – Madame Lalaurie


Vozes: Marcelo Júnior
Roteiro: Marcelo Júnior
Edição: Marcelo Júnior


Roteiro:

Muitas histórias cercam a notória Madame Delphine LaLaurie, uma rica mulher casada e dama da sociedade, que tem assombrado a cidade de Nova Orleans por mais de duzentos anos. Quando um incêndio destruiu parte de sua casa em 1834, a população ficou ultrajada ao descobrir que na sua fazenda Lalaurie rotineiramente torturava seus escravos.

Forçada a fugir da cidade, sua culpa era inquestionável, e relatos de suas ações foram aos poucos se tornando acada vez mais bizarros e grotescos com a passagem das décadas. Mesmo hoje, a mansão LaLaurie é considerada a casa mais assombrada da cidade.

Marie Delphine LaLaurie, ficou conhecida pelo nome de Madame LaLaurie, ela foi uma socialmente influente e poderosa que residiu sua vida inteira no estado de Louisiana. Ela ficou famosa como uma cruel assassina em série, envolvida na tortura e assassinato de escravos.

Nascida em Nova Orleans, LaLaurie casou-se três vezes ao longo de sua vida. Ela manteve uma posição proeminente nos círculos sociais da cidade até abril de 1834, quando populares ajudando no resgate de feridos após um incêndio na sua mansão em Royal Street, descobriram escravos amarrados que mostravam sinais claros de tortura. Furiosos com o que encontraram, populares invadiram a propriedade que pertencia a ela, saqueando e destruindo tudo em seu caminho. Avisada do que estava acontecendo, ela teria se refugiado na casa de parentes e posteriormente mudou de nome para não ser reconhecida devido a reprovação social desencadeada. Temendo que a repercussão a colocaria em perigo, ela fugiu para Paris, onde teria morrido num acidente de caça.

A luxuosa mansão na Royal Street, um dos endereços históricos mais importantes de Nova Orleans foi reformada e vendida após a sua morte. Ela ainda existe e é considerada como um dos locais mais famosos da cidade.

Delphine Macarty nasceu por volta de 1775, uma das cinco filhas de Barthelmy Louis Macarty, um imigrante irlandês que se estabeleceu na América em 1740. Sua mãe foi Marie Jeanne Lovable, também chamada de “viúva Lecomte”, pois havia desposado um importante comerciante falecido em um acidente de carruagem. Ambos eram membros proeminentes da alta sociedade de brancos Créole – descendentes de imigrantes europeus. O primo de Delphine, Augustin de Macarty, foi prefeito de Nova Orleans de 1815 a 1820.

Em meados de 1800, Delphine Macarty casou com Don Ramon de Lopez y Angullo, um Caballero de la Ordem Royal de Carlos (um oficial de alta graduação na Corte espanhola). A cerimônia aconteceu na Catedral de Saint Louis em Nova Orleans. Em 1804, Don Ramon ascendeu a uma posição de destaque, tornando-se cônsul geral da Espanha na Louisiana. No mesmo ano, Delphine e Don Ramon viajaram para a Espanha. Informações sobre a viagem são conflitantes. Segundo alguns historiadores a viagem foi uma punição ao cônsul por falhas na maneira como ele havia tratado de assuntos diplomáticos. Na ocasião, Delphine conseguiu justificar as ações do marido e impressionou a Rainha com a sua beleza e inteligência. O casal recebeu permissão para retornar a América, mas durante o trajeto Don Ramon contraiu uma doença e acabou falecendo em Havana.

Delphine que já estava grávida, decidiu ficar em Cuba onde deu a luz a sua primeira filha Marie Borgia Delphine Lopez y Angulla de la Candelaria, apelidada de “Borquita”. Ela decidiu retornar a Nova Orleans logo após o nascimento da menina e se estabelecer na propriedade herdada de seu marido. Ela própria se tornou a gerente da fazenda que plantava cana de açúcar e teve sucesso nas suas negociações.

Em Junho de 1808, Delphine casou com Jean Blanque, um proeminente banqueiro, mercador, advogado e legislador de descendência francesa. Ela se mudou para a suntuosa Villa Blanque e lá teve mais quatro crianças, todas meninas.

Blanque morreu em 1816 em circunstâncias curiosas que alguns atribuem a envenenamento. Delphine casou com seu terceiro marido, o médico Leonard Louis Nicolas LaLaurie, que era bem mais jovem que ela em 1825. Em 1831, a família adquiriu a famosa propriedade no número 1140 da Royal Street, que ela manteve em seu próprio nome com pouco envolvimento de seu esposo. Há rumores que o dono original da mansão, um médico chamado Nicholas Geny, não pretendia se desfazer da propriedade, mas Delphine estava irredutível, ela habilidosamente negociou com credores e se tornou titular dos direitos sobre dívidas que Geny havia contraído. Valendo-se de seu traquejo financeiro, ela acabou tomando a casa e várias posses do médico que arruinado, se suicidou.

A mansão foi totalmente reformada e nenhum luxo foi poupado para transformar a propriedade em um verdadeiro palácio. Madeira machetada e portões de ferro batido foram trazidos da França, cortinas de tecido inglês nas janelas, móveis e mobília italiana adornava os aposentos finamente decorados com tapetes persas e antiguidades. Em 1832 um terceiro andar foi acrescido a mansão e um alojamento para escravos incluído no topo.

As festas de Madame LaLaurie eram verdadeiros eventos no calendário social de Nova Orleans. Jantares e recitais aconteciam nos salões e jardins da opulenta mansão, onde a nata da sociedade se reunia. A festa de noivado de uma de suas filhas foi um dos eventos sociais mais comentados da primavera de 1832 e contou com a presença de políticos, artistas e pessoas muito influentes.

Na época, era muito comum que as famílias mais abastadas do sul dos Estados Unidos mantivessem escravos negros como mão de obra em suas propriedades. Os LaLaurie possuíam vários escravos que serviam a família e de fato, supõe-se que eles negociavam diretamente com mercadores de escravos ou que tivessem envolvimento com o rentável tráfico negreiro. Relatos a respeito da maneira como Delphine LaLaurie tratava seus escravos entre 1831 e 1834 variam.

A historiadora Harriet Martineau, reuniu a partir de 1838 testemunhos de habitantes de Nova Orleans a respeito dos escravos pertencentes aos LaLaurie. Muitas pessoas observavam que esses escravos eram “singularmente fatigados e magros”; entretanto, em suas aparições públicas Delphine sempre era delicada com os negros e solícita com a saúde de seus escravos. O Tribunal de Registros na época continha notas de que os LaLaurie haviam emancipado dois de seus escravos (chamados Jean Louis em 1819 e Devince em 1832).

Por outro lado, corriam boatos de que Delphine na esfera privada tratava seus escravos de uma forma muito diferente. Autoridades policiais visitaram a Mansão em Royal Street em mais de uma ocasião para devolver algum escravo que havia desmaiado extenuado enquanto tentava cumprir alguma tarefa. Um número considerável havia tentado fugir e na maioria das vezes, quando estes eram trazidos de volta, não eram mais vistos. Algumas leis em vigor em Nova Orleans arbitravam a relação entre escravos e senhores, proibindo que “escravos de casa” recebessem punições consideradas cruéis. Uma amiga de Delphine, no entanto, recordou que uma das criadas da casa, uma jovem escrava, implorou que ela a ajudasse, pois temia que a patroa LaLaurie a matasse.

Várias outras pessoas lembraram estórias envolvendo a crueldade da Madame LaLaurie. Um advogado amigo da família contou ter visto certa vez uma menina chamada Lia, de apenas 12 anos, fugir para o telhado da casa apavorada dizendo que sua senhora queria arrancar sua pele. Enquanto ela chorava desesperada, Delphine aguardava com um chicote prometendo que a punição seria muito pior se ela não descesse imediatamente. Quando ela se negou, a patroa mandou que atirassem pedras para força-la a obedecer. A menina se desequilibrou e caiu quebrando o pescoço. Furiosa, Delphine teria mandado prender o cadáver da menina no poste e ela própria a açoitou inúmeras vezes. O pecado de Lia foi puxar o cabelo da patroa enquanto lhe passava a escova.

Em outra ocasião, Delphine teria ficado descontente com a refeição servida a convidados ilustres na mansão. Para punir os escravos ela teria mandado que eles não recebessem comida por dias, mas eram obrigados a assistir que ela e a família fizessem suas refeições diariamente. Quando um deles desmaiou, Delphine teria mandado que a pobre coitada fosse levada para os fundos, colocada em um caixão e enterrada no jardim. A preocupação da Madame com supostos escravos roubando comida beirava a paranoia. Nenhum deles podia comer nada sem que ela pessoalmente permitisse, como resultado muitos sofriam horrivelmente e definhavam a olhos vistos.

Boatos também diziam que Delphine chegou a ser processada por maus tratos a nove escravos que trabalhavam numa plantação da família. Esses escravos foram supostamente vendidos para outra fazenda, mas alguns dizem que eles jamais chegaram ao seu novo trabalho. Eles teriam sido mortos no caminho e enterrados nos pântanos da Louisiana. Havia ainda muitas outras estórias relatando maus tratos que iam de criadas apanhando com chicotes até escravos que tinham os dedos, mãos, pés cortados com a lâmina de machadinhas por terem cometido falhas, como por exemplo, não polir corretamente a prataria da casa.Em 10 de abril de 1834, um incêndio começou na cozinha da mansão na Royal Street.

Os donos da casa estavam fora e as autoridades foram chamadas para ajudar no combate ao fogo. Na cozinha encontraram uma mulher negra de setenta anos, a cozinheira favorita da família, acorrentada ao forno pelos pulsos e tornozelos. Mais tarde, a mulher confessou que havia iniciado o incêndio como uma tentativa de suicídio por temer a patroa. As palavras dela foram: “Eu tenho medo de ser levada para o andar de cima. Ninguém que é levado para lá volta”

Conforme foi publicado no New Orleans Bee, populares tentaram entrar no alojamento dos escravos para evacuá-los. Uma vez que ninguém sabia onde estavam as chaves, quebraram o cadeado e encontraram “sete escravos em lastimável estado, alguns horrivelmente mutilados… haviam cadáveres pendurados pelo pescoço pendendo em cordas, braços e pernas cortados ainda presos a correntes e inúmeros apetrechos de tortura espalhados pela câmara. Os escravos cativos contaram que haviam sido levados para aquela câmara de horrores onde sofriam horrivelmente. Alguns estavam lá há meses”.Um dos homens que descobriu a câmara de torturas foi o Juiz Jean-Francois Canonge, que posteriormente prestou depoimento sobre o que foi encontrado na mansão: “Havia uma mulher nua com um colar de ferro cheio de espinhos presa na parede por uma corrente. Os muitos ferimentos em suas costas evidenciavam o uso de chicote e ferros em brasa. A mulher contou que a Madame Delphine costumava cortá-la com uma navalha e beber seu sangue. Por vezes ela mergulhava suas mãos e rosto em uma bacia cheia de sangue acreditando que assim poderia rejuvenescer.

Canonge continuou em seu testemunho: “Uma velha negra tinha um ferimento profundo na cabeça e estava fraca demais para falar ou andar. Um homem havia sido castrado e o ferimento fora costurado com barbante, a língua dele também foi cortada para que ele não pudesse reclamar”.Um dos homens de confiança dos LaLaurie, quando interrogado confessou que a câmara de torturas era usada há anos e que a patroa se divertia quase que diariamente atormentando seus escravos. “Nada dava a ela maior prazer” teria contado.

O frio relato enfureceu a população e logo a casa foi destruída por pedras e uma turba armada com paus que colocou tudo, exceto as paredes abaixo. As roupas e jóias da família foram saqueadas, os salões com seus móveis luxuosos devastados e por pouco a casa não foi inteiramente queimada pela multidão. Uma das filhas de Delphine que estava na mansão foi agredida e se não fosse a intervenção das autoridades teria sido linchada.

Os escravos torturados foram levados para a prisão local, onde testemunharam sobre tudo o que haviam passado. As audiências públicas foram muito concorridas – mais de 4 mil pessoas segundo o New Orleans Bee, vieram assistir os procedimentos. Durante a oitiva, pessoas chocadas desmaiaram com a narrativa nauseante até um ponto em que o xerife preferiu restringir a presença do público.

Pittsfield Sun, citando o New Orleans Advertiser contou que semanas depois do ocorrido e da evacuação da mansão, corpos começaram a ser desenterrados no quintal da casa. Oito ossadas humanas completas foram achadas no local onde os feitores dos LaLaurie dispunham os corpos em covas rasas. Se essa descoberta não fosse terrível por si só, outro feitor confessou que haviam muitas outras vítimas cujos corpos foram atirados em um poço seco nos fundos da propriedade. Para acrescentar uma nota de tragédia ainda mais brutal, quando o poço foi aberto, as autoridades encontraram ossos de crianças que haviam sofrido torturas similares.

 

Mas o que aconteceu com Madame Delphine depois da medonha descoberta em sua mansão?

A vida dos LaLaurie depois de 1834 não é bem documentada, havendo escassez de informações em parte porque eles tentaram desesperadamente sumir de circulação.

Após a descoberta aterradora, Delphine e suas filhas teriam fugido para a cidade de Mobile, no Alabama onde foram hospedados por parentes distantes. Lá, seu marido Leonard a abandonou temendo sofrer represálias se continuasse com elas. Delphine ficou com os parentes por algumas semanas, mas mesmo eles estavam temerosos com as acusações que ela vinha recebendo e não a queriam por perto. Em meados de junho, temendo ser descoberta, Delphine mandou suas filhas para que ficassem com amigos e agendou uma passagem num vapor que a levou a Paris.

Supõe-se que os LaLaurie tinham dinheiro em bancos na França, mas não se sabe qual era o tamanho de sua fortuna. O que estava na Louisiana foi perdido para sempre. De qualquer maneira ela ainda tinha o suficiente para permitir se estabelecer na capital da França e manter um padrão elevado. Suas filhas jamais se juntaram a ela na Europa, alegando que não queriam mais ter qualquer contato com a “Megera de Royal Street”.

As circunstâncias da morte de Delphine LaLaurie não são claras. O historiador George Cable relatou uma estória que se tornou popular afirmando que ela teria morrido em um acidente de caçada, na França. Ela teria sido morta por um javali furioso que a derrubou do cavalo e a atropelou. Alguns afirmam que ela teria retornado para a América e morrido em São Francisco em decadência, mas não se pode saber. Seja qual for a verdade, nos anos 1930, Eugene Backes, um coveiro do Cemitério St. Louis descobriu uma placa de cobre com a inscrição:

Madame LaLaurie, née Marie Delphine Macarty, décédée à Paris, le 7 Décembre, 1842, à l’âge de 6-.”

Algumas pessoas contam que o fantasma da Madame LaLaurie ainda assombra as ruas da cidade de Nova Orleans, mas nessa caso, superstições e lendas se misturam com a realidade produzindo estórias assustadoras.

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